A semana de 4 a 11 de agosto de 2026

A partir desta edição o Radar muda de forma: vira uma revista com colunas fixas, cada uma com um dono que comenta com a cara dele. Os mesmos quadros toda terça, com a notícia nova da semana dentro.


O Fio da Semana — por Milton

Seis casas de Wall Street e a maior fabricante de chips do mundo combinaram como pagar a conta da inteligência artificial. E ninguém assinou nada ainda.

Na segunda-feira, 10 de agosto, a Nvidia — a empresa americana que fabrica as placas dentro das quais a inteligência artificial roda — anunciou um acerto com seis das maiores casas de investimento do planeta: Apollo, BlackRock, Blackstone, Brookfield, Goldman Sachs e KKR. O objetivo declarado é juntar mais de 500 bilhões de dólares para construir a infraestrutura da IA.

Duas linhas miúdas mudam o tamanho dessa notícia.

A primeira: não tem dinheiro nenhum levantado. O que foi assinado são memorandos de entendimento — carta de intenção. O próprio comunicado da Nvidia diz que tudo "segue sujeito à assinatura dos acordos finais". Quem leu manchete de "Nvidia levanta meio trilhão" leu errado.

A segunda importa mais. Esse dinheiro não vai para a Nvidia. Vai para os clientes dela, para que comprem dela. E a Nvidia pode entrar bancando até 25% de cada operação.

É a concessionária montando o financiamento do carro que ela mesma vende — e ainda avalizando parte da prestação. Não é ilegal nem é novo; a General Electric fez isso por trinta anos. Mas muda quem fica com o prejuízo se o cliente não pagar. Nas palavras de Jensen Huang, dono da Nvidia, a computação da empresa é "um ativo no qual se pode investir" — ou seja, ele quer que uma placa de vídeo seja tratada como imóvel: coisa que se dá em garantia.

E daí pra você: até agora a IA foi paga com o lucro das empresas gigantes, que sobrava. Daqui pra frente, uma parte passa a ser paga com dívida. E dívida tem prestação — prestação tem data e cria pressa. A conta de quem usa IA vinha caindo. Essa queda tem prazo.

Comentário do Milton: Ninguém empresta meio trilhão de dólares para uma tecnologia que está indo mal. Mas também ninguém precisa tomar meio trilhão emprestado para uma que está indo tão bem assim. As duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo, e é nesse desconforto que a semana inteira mora.


Chão de Fábrica — por Rita, com a Têca

No dia 5, um programa de IA muito usado foi desligado. Quem dependia dele não vai parar de funcionar: já parou.

A Anthropic, dona do Claude, aposentou o modelo Claude Opus 4.1 em 5 de agosto. A frase oficial é seca: "todas as requisições a este modelo agora retornarão erro." Não é aviso sobre o futuro. Se algum sistema da sua empresa foi montado no ano passado com esse nome escrito por dentro, ele parou naquele dia.

Na mesma semana, a mesma empresa publicou quatro controles novos para quem usa IA que trabalha sozinha: teto de gasto por sessão, um servidor aprovando cada pedido antes da resposta, gravação das sessões para auditoria e varredura das extensões de terceiros. Três dos quatro estão em teste e só valem no plano de empresa grande.

Vale pôr uma régua ao lado. A consultoria Deloitte ouviu 3.235 executivos em 24 países — pesquisa de campo de agosto e setembro do ano passado, então leia como retrato, não como foto de hoje. 37% deles usam IA sem mudar processo nenhum. Outros 30% redesenharam o jeito de trabalhar em volta dela.

E daí pra você: quem só plugou a ferramenta por cima descobre que ela foi desligada quando o cliente reclama. Quem redesenhou o processo sabe exatamente onde ela está encaixada e quem responde por aquilo.

Comentário da Rita: Comprar é a parte fácil e barata. O dinheiro só volta quando o trabalho muda de forma em volta da ferramenta — e é aí que a maioria trava, porque mudar processo dói e comprar software não dói nada.

Nota da Têca: O que quase ninguém escreve no contrato é que modelo de IA tem prazo de validade. O fornecedor aposenta, e a data quem escolhe é ele. Pergunte por quanto tempo aquilo que você está integrando continua no ar.


Estúdio — por Têca

Uma empresa diz que ouve a música inteira e devolve o videoclipe pronto em três minutos. Vamos com calma.

No dia 5 de agosto, uma empresa chamada OiiOii AI anunciou uma ferramenta que, segundo ela, escuta a música do começo ao fim — estrutura, ritmo, letra — e monta sozinha o roteiro, os personagens, os cortes e a finalização de um clipe.

O mecanismo descrito é o detalhe bom, e é honesto reconhecer: entender a música antes de desenhar a imagem é o que faz a troca de cena cair na batida certa. Ferramenta que recebe só uma descrição em texto erra isso feio.

Agora a parte que não sai em manchete: isso é comunicado da própria empresa, distribuído por assessoria. Ela nasceu em 2025. Não há preço, não há data de abertura ao público e não há um único teste feito por gente de fora.

E daí pra você: toda vez que ler "monta sozinho em três minutos", a pergunta que economiza dinheiro é uma só — quem mediu isso? Se a resposta for "o fabricante", você está lendo propaganda. Propaganda pode até estar certa, mas não é prova.

Comentário da Têca: Demonstração é o melhor dia da vida de um produto. O dia difícil é o terceiro mês, com arquivo torto, música fora do padrão e prazo do cliente. É esse dia que ninguém filma.


No Seu Bolso — por Rita

O aumento de 50% que estava marcado para setembro foi cancelado.

O preço de estreia de um dos modelos mais usados do mercado, o Claude Sonnet 5, ia subir no dia 1º de setembro. Não vai mais. A Anthropic confirmou em duas páginas oficiais diferentes que o preço de lançamento virou o preço definitivo.

Vale reparar no que a empresa não disse: não deu motivo, não disse por quanto tempo o preço fica travado, e não fez nota parecida para os outros modelos dela.

Você provavelmente não compra isso direto. Quem compra é o fornecedor que te vende o sistema — e o custo dele acabou de deixar de subir.

E daí pra você: essa é a pergunta de uma linha para a próxima conversa com quem te vende tecnologia: "o aumento que era pra valer em setembro foi cancelado lá em cima. Isso desceu pra minha fatura, ou ficou com você?" A resposta diz mais sobre o fornecedor do que qualquer apresentação comercial que ele faça.

Comentário da Rita: Reajuste sobe rápido e desce devagar — quando desce. A economia lá na origem só chega até você se alguém perguntar. Seja essa pessoa.


Sinal de Alerta — por Guto

O alerta da semana não é que a IA seja perigosa. É entrar nela sem método.

Nos dias 10 e 11 de agosto, a OpenAI lançou um modelo chamado GPT-5.6-Cyber, treinado para trabalho pesado de segurança digital — achar falha que ninguém achou e montar o caminho de invasão. Pela medição da própria empresa, ele conclui 95% desse tipo de tarefa, contra 1,5% do modelo comum. (O número é da OpenAI, não de um avaliador de fora.)

Repare no que ela fez com isso, que é a parte útil: não pôs à venda. Montou um programa com camadas de acesso e liberou só para empresas com nome e sobrenome — IBM, Accenture, PwC, CrowdStrike, Cloudflare, Palo Alto Networks. Ou seja: acesso ao que é potente já vem com exigência de método embutida.

O dinheiro vai para o mesmo lugar. No dia 4, a Obsidian Security levantou 85 milhões de dólares e passou a valer 1,1 bilhão fazendo uma coisa só: controlar o que os robôs de IA podem fazer dentro dos sistemas de uma empresa.

E há os números que assustam de outro jeito. A RAND, centro de pesquisa americano, cita estimativas de que mais de 80% dos projetos de IA nas empresas fracassam — e é justo dizer que ela cita, não mede: o estudo dela é feito de entrevistas. Um levantamento do MIT chegou a 95% de projetos-piloto sem retorno medido, e merece a mesma ressalva: preliminar, sem revisão de pares, 52 organizações ouvidas. Nenhum dos dois é lei da física. Os dois apontam para o mesmo lado.

E daí pra você: o risco não é usar IA. É começar pela ferramenta em vez de começar pelo problema. A pergunta que salva orçamento não é "qual eu compro?" — é "qual dor minha eu quero resolver, e como eu vou saber que resolveu?"

Comentário do Guto: Ninguém quebra por usar IA demais. Quebra por usar IA sem rumo, achando que basta contratar e ligar. Quem pula a pergunta chata do começo vira linha em estatística de fracasso — e paga caro pela linha.


Pílula da China — fechamento

As IAs chinesas viraram maioria. E o risco delas não é a bandeira: é quem guarda o seu dado.

Você já ouviu falar do ChatGPT e do Claude. Provavelmente nunca ouviu falar de DeepSeek, Qwen ou Kimi — programas de IA chineses que, sem alarde, passaram a ser a maioria de tudo que se consome numa das maiores plataformas do Ocidente, a OpenRouter. Os números variam conforme o recorte, então fico no que todos concordam: viraram maioria, e a fatia americana caiu de cerca de 70% para cerca de 30% em um ano. O motivo é o preço: o modelo mais forte da DeepSeek sai por volta de doze vezes mais barato que o americano equivalente.

E a tal insegurança? Aqui a Steering se posiciona — com a dúvida escrita junto. Existe uma lei chinesa de 2017 cujo artigo 7º diz que "todas as organizações e cidadãos devem apoiar, ajudar e cooperar com o trabalho de inteligência nacional". É real e está publicada. E é justo dizer o outro lado: há juristas apontando que esse artigo não traz punição para quem não cooperar, ao contrário de outras leis de lá. A obrigação existe; o quanto ela pesa na prática é disputado.

O que não é disputado é onde mora o risco: não é o programa ser chinês, é o seu dado estar num servidor sob aquela lei. E aí vem a parte boa — esses modelos são abertos, dá para instalar dentro da sua própria empresa. Feito assim, não existe dado para entregar: ele nunca sai de casa.

Só que essa saída tem preço, e seria desonesto vender como botão: rodar um desses por conta própria pede placa de vídeo cara, alguém que saiba operar e conta de luz. É uma troca, não um atalho.

E daí pra você: é a mesma história do "feito na China" dos eletrônicos. Um dia todo mundo desconfiou da qualidade; hoje quase todo celular do mundo nasce lá e ninguém reclama. O problema nunca foi a origem — é quem está com a chave dos seus dados. Não é bandeira, é configuração. E configuração é escolha, não sorte.


Radar Steering sai toda terça. Se você não sabe dizer, agora, quais processos da sua empresa já rodam com alguma inteligência artificial no meio, é disso que a gente cuida: fale com a Steering.