A semana de 2 a 9 de agosto de 2026
Se a sua empresa tem um atendimento automático conversando com cliente na Europa, desde o dia 2 de agosto ele é obrigado por lei a começar dizendo uma coisa: que não é gente.
Não é recomendação de boas práticas. É a lei europeia de inteligência artificial, que a Comissão Europeia — o braço que executa as decisões da União Europeia — começou a fazer valer naquele domingo. O comunicado dela diz, em tradução nossa, que "chatbots e outros sistemas interativos de IA vão ter que dizer aos usuários que estão lidando com uma IA, não com um humano". E mais duas: vídeo, áudio ou foto gerados ou alterados por máquina precisam sair rotulados, e o que a máquina produz tem que carregar uma marca que outro programa consiga ler, para dar para descobrir depois que aquilo saiu de uma IA.
Agora a parte que quase ninguém noticiou, e que muda o sentido de tudo: essa é a parte leve da lei. A parte pesada foi adiada em dezesseis meses.
E é por isso que a frase mais útil desta edição vem já, e não no fim: nos próximos dezesseis meses, a única regra que vale dentro da sua empresa é a que você escrever no contrato com o fornecedor. O resto desta edição é o porquê.
O que ligou, e o que só parece que ligou
As três obrigações que entraram em vigor parecem irmãs. Não são — e essa diferença é a coisa mais prática deste texto.
A primeira é uma frase na tela. "Você está falando com um assistente automático." É das coisas mais baratas que existem para mudar num sistema desses, e não tem como burlar: ou está escrito, ou não está.
A terceira é outra história. Pôr uma marca legível por máquina dentro de um arquivo é encanamento de verdade — é embutir no próprio vídeo, na própria foto, um selo que outro programa consiga conferir depois. E esse selo é frágil: um print da tela, um recorte, uma conversão de formato, uma repostagem, e ele some. O conteúdo sobrevive; a marca não. O que o comunicado descreve é a obrigação de a marca existir — não de ela aguentar a viagem. Dá para uma empresa estar cumprindo a regra à risca e, cinco minutos depois, o material dela estar circulando por aí sem rastro nenhum de que foi feito por máquina.
Então quando eu digo que a Europa ligou a parte barata, estou falando da primeira. A terceira é barata de escrever na lei e cara de fazer funcionar.
A parte que dói ficou para dezembro de 2027
A lei europeia separa os usos de IA por risco, e no degrau de cima estão os que decidem sobre a vida de alguém. A própria Comissão lista as áreas: reconhecimento facial e outras leituras do corpo, infraestrutura crítica — água, luz, transporte —, educação e formação, contratação e gestão de trabalhadores, e controle de migração e de fronteira. Para esses usos, a lei exige o pacote pesado: registro do que a máquina decidiu, gente responsável no meio do caminho, prestação de contas.
Esse pacote era para valer no mesmo dia 2 de agosto. Não vale. Um conjunto de mudanças apelidado de Digital Omnibus — um pacote que simplifica várias regras digitais europeias de uma vez — entrou em vigor no dia 27 de julho, seis dias antes, e empurrou essa parte para 2 de dezembro de 2027.
Dezesseis meses. Justamente onde a máquina decide sobre gente.
Por que adiaram? Tem duas explicações, e eu vou dar a mais chata primeiro, porque ela é provavelmente a mais certa: as duas coisas não custam o mesmo. Fazer um robô se apresentar é uma frase. Refazer um sistema de crédito para que ele registre por que negou, permita contestação e tenha uma pessoa respondendo por aquilo é meses de obra. Ninguém no mundo entregaria isso até agosto de 2026, com lobby ou sem lobby.
A outra explicação é a que todo mundo comenta em voz baixa: quem seria multado tinha pressa em adiar. Eu não tenho como provar essa, e não vou fingir que tenho — não li nenhum documento que mostre quem pediu o quê. O que dá para ler é o calendário, e o calendário mostra o alívio chegando seis dias antes da cobrança.
Fico na primeira explicação. Do outro lado do oceano, na mesma semana, não precisei escolher.
Nos Estados Unidos, o aluno ajudou a montar a prova
No dia 4 de agosto, uma terça-feira, a Casa Branca reuniu Google, OpenAI, Anthropic e Meta para fechar um acordo de testes de segurança. O desenho: as empresas mostram os modelos mais avançados ao governo até 30 dias antes de lançar ao público, para uma avaliação de segurança digital. A ideia nasceu de uma ordem do presidente Donald Trump, em junho, que mandava descobrir se os modelos americanos são capazes de invadir sistemas críticos.
Duas palavras fazem todo o trabalho aqui.
A primeira é voluntário. Não é lei e não tem multa. A segunda é quem estava na sala: as quatro empresas que seriam avaliadas foram chamadas para revisar o rascunho do exame antes de ele ser fechado. Isso não é dedução minha, é o que a reunião era. E, até agora, o governo americano não publicou como os modelos serão entregues, como serão testados, nem o que acontece se o resultado for ruim.
Chamar isso de exame é elogio. É mais parecido com um parecer de colega — e parecer de colega não reprova, aconselha.
Tem ainda um detalhe que só apareceu em uma análise, sem confirmação em outro veículo: o acordo valeria apenas para os modelos fechados, os que ninguém de fora consegue baixar. Os modelos abertos, que qualquer pessoa instala na própria máquina, ficariam de fora. Se for isso mesmo, a regra pega quem já tem cadeira na mesa e não pega quem não tem.
E tem um limite do próprio desenho, esse sim mecânico: olhar o modelo 30 dias antes de lançar é uma fotografia. Ela não pega o que aparece depois. Foi exatamente esse o assunto da nossa edição passada — os três casos reais de invasão que a Anthropic revelou não apareceram em nenhuma checagem de lançamento; apareceram meses depois, quando alguém foi revirar 141 mil registros de teste que estavam lá o tempo todo.
A contratação que conta a história melhor que qualquer análise
No mesmo dia 4 de agosto, a Anthropic — a dona do Claude — anunciou seu primeiro chefe de assuntos globais: Mariano-Florentino Cuéllar, o Tino.
Vale olhar quem é, porque o currículo é o recado. Cuéllar foi juiz da Suprema Corte da Califórnia, passou por três governos americanos e acabou de deixar a presidência do Carnegie Endowment for International Peace, um centro de estudos de política internacional em Washington. Vai se reportar direto a Daniela Amodei, a presidente da empresa.
Repare que não é um vendedor. Não é um lobista de carreira. É um juiz. Quando uma empresa de tecnologia cria um cargo desses e põe um juiz nele, ela está dizendo, sem comunicado nenhum, onde acha que a próxima rodada vai ser decidida: não em quem tem o melhor modelo — em audiência, em processo, em quem interpreta a norma.
E no Brasil?
O projeto de lei brasileiro de inteligência artificial, o PL 2338, foi aprovado pelo Senado em 10 de dezembro de 2024 e segue a mesma lógica de separar os usos por grau de risco. Na descrição da própria Rádio Senado, entram na conta de alto risco coisas como controle de fronteira, uso em diagnóstico de saúde, controle de trânsito e de redes de água e energia, seleção de aluno em processo de admissão e — esta interessa a quase toda empresa — a decisão sobre quem tem acesso a serviços essenciais, públicos ou privados.
E aí a história para. Segundo a ficha oficial de tramitação, o texto foi remetido à Câmara dos Deputados em 17 de março de 2025, e essa é a última movimentação registrada.
Ou seja: na Europa a regra está adiada em dezesseis meses. Aqui ela está parada há quase dezessete. A diferença é que lá alguém está contando o tempo.
Por que isso chega até você antes de qualquer fiscal
Você provavelmente não atende cliente europeu, e nenhuma dessas regras vai bater na sua porta tão cedo. Mas elas chegam antes da fiscalização, por dois caminhos bem concretos:
Pelo preço. O fornecedor que te vende IA — mesmo o brasileiro, mesmo o pequeno — monta o produto dele em cima de modelos dessas empresas grandes. O que elas gastarem para rotular, marcar e registrar tudo tende a aparecer no preço da camada de baixo, e a camada de baixo é a sua fatura. Isso chega muito antes de qualquer autoridade brasileira.
Pelo costume. Quando uma exigência vira padrão de mercado, ela para de ser negociável. Hoje você ainda pode pedir cláusula de responsabilidade e conseguir. Daqui a dois anos, quando "todo mundo faz assim" já estiver no contrato-padrão do fornecedor, você assina o que veio.
E aqui está a minha opinião, que é discutível e eu prefiro dizer com todas as letras a fingir neutralidade: empresa opinar sobre a regra que a atinge é normal e até saudável — regulador que não escuta quem constrói escreve bobagem. O problema não é a cadeira. É o placar. Quem estava sentado ganhou dezesseis meses de prazo e, em 2027, vai vender às empresas médias exatamente a prova de estar dentro da regra que ajudou a desenhar: registro de agente, rastro de auditoria, marca em conteúdo. Quem é fiscalizado hoje é quem vende, amanhã, a prova de que você está dentro da regra. E quem não estava em sala nenhuma vai comprar isso pronto, em dólar.
Não dá para mudar o placar. Dá para chegar em 2027 com contrato escrito.
O que fazer nesta semana
Trinta minutos, hoje. Pegue o contrato ou os termos de uso de cada ferramenta de IA que sua empresa paga e procure uma frase: quem responde se a máquina errar. Se você não encontrar — e é o mais provável —, mande hoje um e-mail ao fornecedor perguntando isso por escrito. Não precisa de advogado para fazer a pergunta. Precisa de advogado se a resposta não vier.
Uma pergunta, na próxima reunião com fornecedor. "Cada agente de vocês tem uma identificação própria, ou todos entram no meu sistema com a mesma senha?" A pergunta parece técnica e é de gestão. O arranjo mais comum ainda é o robô entrar usando uma chave compartilhada com todos os outros — e aí, quando algo dá errado, o registro mostra que "o sistema fez", não qual robô, em qual tarefa, às quantas horas. Já existe produto resolvendo isso: em 29 de julho, a Google liberou para todos os clientes um recurso que dá a cada agente um crachá próprio, com permissão mínima e registro de cada ação. Não é obrigação de ninguém — é justamente por isso que perguntar hoje ainda funciona como negociação, e não como exigência.
Uma decisão, sua. Avisar que o atendimento é robô não é lei no Brasil. É escolha. Aviso que ela tem preço comercial — uma parte do cliente pede humano na hora em que descobre —, e essa parte é leitura minha de funil, não dado de pesquisa. Mas é uma decisão que fica melhor tomada agora, por você, do que daqui a dois anos por um contrato que já veio pronto.
Radar Steering sai toda terça. Se ao procurar essa cláusula você descobrir que ninguém sabe quais processos da sua empresa já rodam com IA, é disso que a gente cuida: fale com a Steering.